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                                                                                                                         *Por João Amaral 

Lembrado em 3 de dezembro, o Dia Mundial sem Agrotóxicos se refere a data em que milhares de pessoas morreram, em 1984, após o vazamento de uma fábrica de agrotóxicos da Carbide Union, que provocou a morte de 8 mil pessoas, deixando outras intoxicadas com sequelas.  

Hoje é um dia de luta e de reflexão. E ao falar de agrotóxicos é necessário entender as transformações que ocorreram no campo nas últimas décadas e do surgimento do agronegócio principal responsável pelo uso de venenos na agricultura.  

Podemos iniciar essa reflexão salientando que o Brasil sustenta duas posições de destaque no campo do agronegócio: é o maior consumidor de agrotóxicos e um dos maiores exportadores de commodities do mundo. Essas duas colocações são a expressão de um modelo de economia para o campo e para o país. 

As transformações ocorridas no campo a partir dos anos 70 deram surgimento à agricultura altamente mecanizada, com elevados investimentos em agroquímicos para a produção de mercadorias, consequentemente, fortalecendo a agricultura de negócio e não para o bem viver. 

Com o advento do agronegócio, o trabalho humano no campo foi substituído por máquinas e pelo veneno. O uso do veneno, por esse modelo, não é uma necessidade agronômica. Para se produzir não precisa veneno, que é usado como uma forma de substituir a mão de obra que antes fazia as práticas agrícolas com tempo de trabalho, por exemplo a capina, um plantio mais cuidadoso. 

Este modelo agrícola, o da morte, é a expressão da expansão capitalista no campo. Dados CPT (Comissão Pastoral da Terra) afirmam que com o avanço do agronegócio quatro milhões de camponeses foram expulsos do campo nos últimos anos.

Este contingente foi habitar os corredores de miséria, de pobreza, de violência, de degradação ambiental margeando as estradas nas cidades do interior e as grandes propriedades. Ou ainda, se deslocaram para as grandes cidades onde o cenário é o mesmo: de violência, pobreza e degradação ambiental. 

Concluímos então que o agronegócio é um modelo que cumpre duas funções dentro do sistema produtivo capitalista para o campo. Primeiro, de substituir a mão de obra. Segundo, como são monoculturas em larga extensão – ou só soja, ou só laranja, ou só arroz – têm de matar, na lógica do agronegócio, todas as outras formas de vida vegetal ou animal (e a humana). 

Resulta deste modelo, uma aliança permanente entre interesses – o grande proprietário, as empresas que compram a sua produção, que controlam o mercado das commodities e que ao mesmo tempo são as fabricantes de veneno. A Monsanto, por exemplo, fornece os fertilizantes, o veneno, e depois compra a soja. A mesma coisa faz a Cutrale com a laranja. Oferece o veneno, os adubos e, depois, compra a laranja. 

Assim, a mesma empresa ganha dinheiro com veneno e controla o mercado, que tem origem nas fórmulas desenvolvidos pela Bayer, pela Basf, pela Du Pont, Syngenta, utilizadas em sua origem nas guerras. Na Primeira e na Segunda Guerra Mundial foram usadas como armas. Depois, os Estados Unidos, utilizou na Guerra do Vietnã. Quando terminaram as guerras, empresas como a Bayer, adequaram aquelas fábricas de veneno para matar gente e floresta em larga escala, para a agricultura. São as mesmas empresas. Algumas mudam de nome, realizam fusões. Mas sempre são os mesmos grupos de acionistas, os responsáveis pela fábrica da morte. Como sabemos, os efeitos são de extrema gravidade.  

Os agrotóxicos produzem graves consequências para a população: os cientistas e médicos que trabalham no Instituto Nacional do Câncer (Inca) têm feito várias pesquisas e alertado que o veneno, quando se acumula no organismo, começa a atacar as células mais frágeis. É por isso que tem aumentado a incidência de alguns tipos câncer, que não têm mais relação com a idade das pessoas.  

Hoje podemos ter câncer de próstata com 40 anos. Mulheres com 20, 30 anos, são diagnosticadas com câncer de mama. O Instituto Nacional de Câncer (INCA) advertiu que, a cada ano, surgem 500 mil novos casos de câncer, no Brasil. Grande parte deles vem do uso de venenos agrícolas. Mas isso não passa na TV. Não faz parte dos noticiários. Pois o agronegócio é um dos grandes patrocinadores dos telejornais. 

O professor Wanderlei Pignati, da Universidade Federal do Mato Grosso, pesquisou durante dez anos mulheres de uma região do estado e encontrou resíduos de glifosato no leite materno. As mães que achavam que estavam alimentando seus bebês não sabiam que através do que comiam concentravam também o veneno absorvido no leite; e as crianças, ainda bebês, estavam recebendo suas primeiras doses. 

Cabe lembrar que desde que Jair Bolsonaro assumiu a presidência, 467 novos agrotóxicos já foram aprovados, segundo monitoramento da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida. Este governo tem como pilar de apoio em sua base, o agronegócio, defendendo as causas desse setor, diante de seus tradicionais “inimigos”: os ambientalistas “radicais” e as “invasões” dos sem-terra. O aumento da violência no campo, o ataque às comunidades indígenas, o extermínio de lutadores/as de Direitos Humanos e a criminalização de ambientalistas tem sido a marca desse governo. Com um ministério que atua contra a maioria do povo brasileiro, os interesses do capital financeiro e do agronegócio tentam “tomar conta dos bens comuns”. O ministro do meio ambiente Ricardo Salles representa a morte. 

Para finalizar quero enfatizar que precisamos urgentemente abrir um diálogo com a sociedade sobre a finitude dos recursos naturais e dos riscos que o atual modelo de produção nos impõe; temos que enfrentar os interesses dos conglomerados econômicos- do agronegócio e agroquímicos- e combater o uso do veneno da agricultura de guerra (agronegócio), apresentando como alternativa a agroecologia e a agricultura familiar. Modelos de agricultura que produzem alimentos saudáveis e livre de venenos. 

Neste sentido, é imprescindível discutir a Reforma Agrária e Agroecologia como parte integrante de um novo projeto de sociedade brasileira.  Este que esta ai e prioriza o agronegócio , o veneno dos agrotóxicos e a morte não nos serve. 

João Amaral é Jornalista e militante Ecossocialista   

Abaixo assista o vídeo: O veneno está na mesa  

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