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                                                                                                                                        *Por Éric Vargas

Mas… não somos esse “gaúcho” criado pelo MTG!

Terminada a Revolta Farroupilha, com a rendição dos farrapos que foram incorporados ao Exército Imperial Brasileiro, com escravos que lutaram pelos farroupilhas voltando à escravidão e gaúchos voltando a vagar pelos pampas em troca de trabalho sazonal, o latifúndio pecuarista manteria a hegemonia econômica até por volta de 1920/30.

Em 1860 Porto Alegre tinha pouco mais de 20mil habitantes, comerciantes tinham medo dos ideais libertários de alemães.

Nos pampas o gaúcho errante, mestiço e incorporador dos costumes dos indígenas (charruas e guaranis já praticamente exterminados) também desapareciam. Se tornavam moradores pobres de cidades e vilarejos porque nesta mesma época chegava o arame que cercava as estâncias (famoso arame Gorgom que vinha liso e no recém inventado farpado, 1874).

Com isso sumiram postos de trabalho como dos posteiros de estância.

A Guerra do Paraguai recém havia acabado, novamente negros foram enganados com promessas de liberdade, foram enviados como “voluntários da Pátria”(Até hoje nome de ruas).

A Bombacha se tornava a vestimenta campeira nessa época, foi uma venda de milhares de peças impostas pelo Imperialismo inglês que as produziu originalmente para o exército turco (pantalonas turcas).

Foram dadas várias peças a cada membro da cavalaria gaúcha na Guerra do Paraguai que distribuíram/venderam e a espalharam. E assim, primeiro em histórias orais o “Gaúcho” foi perdendo a conotação negativa (chamar um general farroupilha de “gaúcho” era desculpa para tomar um tiro deles).

O Gaúcho, com o significado que conhecemos hoje, foi sendo inventado pela literatura regionalista do final do século XIX.

O primeiro trabalho que conferia ao Gaúcho a condição de herói fronteiriço foi obra de ficção de um autor que nunca esteve no RS, José de Alencar, foi o livro “O Gaúcho” de 1870.

Em 1868 tinha sido criado em Porto Alegre uma associação de intelectuais, o Partenon Literário (Partenon era o nome do templo à deusa Atena na Atenas da Grécia Antiga) no qual eles escreveriam celebrações às elites locais das quais dependiam.

Liderados por Apolinário Porto Alegre e Caldre e Fião, caberia aos integrantes louvar os personagens da Revolta Farroupilha alçados ao papel de heróis que representariam a honra, liberdade e igualdade (mesmo sendo estancieiros escravistas que matavam índios, exploravam os gaúchos errantes e fossem autoritários).

Nascia o Mito do gaúcho! Para dar certo, esta celebração de um gaúcho mitológico criava a falsa ideia que o gaúcho sem nação e errante era um análogo dos cavaleiros da Idade Média quando acompanhava seus comandantes fazendeiros nas batalhas e lidas.

Colocavam um rompante europeu que nem lá na Europa existiu na realidade, foi fruto do romantismo.

Depois vieram os clubes de “tradição” (baseados nessa romanização irreal da literatura regionalista), os “Grêmios de tradição gaúcha” (1898) e além o MTG (1948) . . . mas isso é papo para os próximos contos destas nossas ilusões que só são desculpas para criar uma identidade que ignora as diferenças de classe entre exploradores e explorados e são desculpa para alguns montarem acampamentos em uma capital que nunca foi farrapa!

Sobre a reinvenção do significado de gaúcho de forma a-histórica com uso de romantismo medieval, lembro da música “Longe demais das capitais” do Engenheiros do Hawaii (1986):

“Eu sempre quis viver no velho mundo, na velha forma de viver. (…) nossa cidade é tão pequena e tão ingênua, estamos longe demais das capitais!”

Link da música:https://youtu.be/QO19N4fFL8c

Fotos de autores desconhecidos. Provável tenham sido realizadas por volta dos anos de 1840 logo após da invenção da fotografia.

*Éric Vargas é professor de História e Filosofia da rede pública estadual do RS.

 

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