Aviso no Topo do Site
Acompanhe as últimas notícias de Tapes e Região.

                                                            * Por João Amaral

Difícil começar este texto de outra forma que não apontando certa crueldade que parece significar as elites brasileiras. Incluído nisso a auto intitulada “elite” tapense também.

Em um momento em que passamos de 40 mil mortos pelo novo coronavírus, e que a crise econômica – que já era antes cavalar e que ganha proporções trágicas no contexto atual – pesquisas revelam que um terço das famílias de classe A e B solicitaram, através de ao menos um integrante, o auxílio emergencial oferecido pelo estado para ajudar os mais pobres a atravessarem a pandemia.

Em Tapes a divulgação da lista dos beneficiados pelo programa de ajuda aos mais necessitados causou impacto meteórico. A presença na lista de um considerável número de pessoas que não se encaixam nos critérios ou que visivelmente fraudaram dados, gerou indignação e revolta.

E cabe aqui ressaltar as palavras “ não se encaixam nos critérios” e “fraudaram dados”. Para assim evitar generalizações.

O que causou maior revolta entre as pessoas foi informação da realização de uma festa chamada de “Festa dos 600”. Regada a cerveja, espumante e churrasco, mostrando o verdadeiro caráter desta elite tapense que antes ia para as redes sociais criticar o Bolsa Família demonstrando todo seu desprezo pelos pobres e mais carentes da cidade.

Mas precisamos viajar no tempo para descobrir as raízes desta “elite” abjeta e ignóbil. E as encontramos já na chegada dos invasores europeus que aqui aportaram por volta do século XVI.

Em 1549, Pero Borges desembarcou na Bahia, na comitiva do primeiro governador-geral da colônia, Tomé de Sousa. Foi nomeado ouvidor-geral do Brasil, cargo equivalente hoje ao de ministro da Justiça. Seu salário foi estipulado pelo rei D. João III, em 200 mil réis por ano e conseguiu receber toda essa quantia antes mesmo de embarcar.

O problema maior é que, às vésperas de vir ao Brasil, Pero Borges estava envolvido em um superfaturamento de uma obra em Portugal. Em 1543, encarregado de supervisionar a construção de um aqueduto, passou a receber os pagamentos em casa, sem a presença de um escrivão ou contador. O caso foi levado ao rei, as obras foram interrompidas e instalou-se uma comissão de inquérito, já um tipo de CPI da época. A investigação apurou o desvio de 114.064 réis, mais de 10% do total da verba destinado para a obra.

Pero Borges teve de devolver o dinheiro desviado, vendendo uma de suas fazendas e ainda foi execrado de qualquer cargo público durante três anos. Mas, passados somente um ano e sete meses da sentença,  foi nomeado, pelo mesmo rei, para o cargo de ouvidor-geral do Brasil. Aqui, além de ouvidor, foi nomeado no governo seguinte provedor-mor da Fazenda, que seria hoje um ministro da Economia.

Este é o DNA da elite brasileira. E incluí-se ai a de alguns tapenses que andam em carros luxuosos e frequentam as festas badaladas do High Society  da cidade.

Quando as naus de Pedro Alvares Cabral aportou em terras Brasilis a primeira coisa que a futura elite fez foi achacar os povos originários que habitavam o continente que estavam “descobrindo”.

Movidos por escopos comerciais, os estrangeiros antepassados da atual elite que hoje se contenta em fraudar o Auxílio Emergencial, adotaram o escambo como forma de sustentar suas ambições.

Os europeus, não só os portugueses que por aqui chegavam, se interessavam pela extração do pau-brasil. O trabalho dos índios era cortar as toras de madeira e carregá-las até as caravelas. Recebiam, em troca, as bugigangas mais diversas – apitos, espelhos, chocalhos…

Quando se tornou escasso a madeira nobre, as elites recém-instaladas, necessitou do trabalho escravo dos nativos para as grandes plantações de cana de açúcar, cacau e mais tarde de café e assim manter seus lucros e organizar a nova nação.

E se preciso fosse, matar os rebeldes que se recusassem a servir os senhores. Segundo Darcy Ribeiro na obra “ Povo Brasileiro” havia no Brasil 5 milhões de índios que foram reduzidos a 900 mil nos dia atuais. Que por vontade do novo representante desta elite que hoje governa, Jair Bolsonaro, deve ser reduzidos mais ainda.

Cabe lembrar que o que levou os portugueses a se interessarem por essas terras foi a possibilidade de ampliar seu projeto escravista. Nosso país nasceu da escravidão, não de um projeto utópico que visava encontrar um paraíso na terra, mas do sangue e do suor dos povos indígenas e africanos que vieram trabalhar compulsoriamente.

Não é a toa que 86% das pessoas que desembarcaram no Brasil entre 1500 e 1850 eram negras. O tráfico de escravos é de importância singular para a construção do Brasil. E isto já demonstrava o caráter dos tataravós da atual elite.

Não é possível passar impunemente pelo fato de termos sido uma colônia de exploração e de nosso território ter sido majoritariamente dividido em grandes propriedades monocultoras, que concentravam no senhor de terra o poder de mando e de violência, bem como o monopólio econômico e político.

E ainda aqui persiste teimosamente uma mentalidade e lógica dos latifúndios ( fazendeiros), cujos senhores viraram os coronéis da Primeira República, e que seguem através de suas famílias ainda encastelados em seus estados e municípios, como caciques políticos e eleitorais. Eis o Centrão como representante destes setores no congresso nacional.

Diante desses grandes poderes personalizados e localizados, acabamos por criar práticas patrimonialistas, que implicam o uso do Estado para a resolução de questões privadas destas elites que acham que tem o direito de fraudar o Auxilio Emergencial porque pagam impostos.

E o cinismo das explicações e justificativas nas postagens em redes sociais que percebemos em Tapes quando da divulgação pela imprensa das irregularidades encontradas na lista dos beneficiados pelo Auxílio Emergencial, assemelha o que seus antepassados afirmaram quando da abolição da escravatura : “a liberdade é negra, mas a igualdade é branca” diziam os porta vozes da elite branca e rica deste país.

As explicações e justificativas buscam na verdade esconder a prática corrupta que tentam esconder mas que foi desnudada pelo Portal da Transparência e exposta pela imprensa independente que não se submete a “casa grande”. 

Lembramos que a corrupção é uma prática que degrada a confiança que temos uns nos outros e desagrega o espaço público, desviando recursos e direitos dos cidadãos. Não por coincidência, ela se encontra, muitas vezes, associada ao mau trato do dinheiro público, ocasionando o descontrole das políticas governamentais como acontece em programas sociais como o de Auxilio Emergencial.

Etimologicamente, a palavra provém do latim corruptio, significando o “ato de quebrar em pedaços”; isto é, de “deteriorar ou decompor algo”.

O “corruptor” é aquele que propõe uma ação ilegal para benefício próprio, de amigos ou familiares, e pratica o ato consciente de que está infringindo a lei. Portanto são corruptos sim. E assim devem ser visto pela sociedade onde estão inseridos.

E pior assistimos nos comentários realizados nas redes sociais em Tapes o surgimento de um outro sujeito. A figura do “conivente”, que é o sujeito que toma conhecimento do ato de corrupção mas nada faz no sentido de evitá-lo e ainda defende o corrupto.

Comentários em apoio aos fraudadores do Auxílio Emergencial revelou essa categoria social de lambe botas dos senhores da casa grande.

Já a elite que se apropriou do recurso público acha que têm direito, “porque considera que o dinheiro público não é de ninguém”. Do ponto de vista moral e ético também não acham errado e ainda justificam isso nas redes sociais.

O curioso é que todos eles dizem que são a favor do Estado mínimo e contra a corrupção. A velha e falsa moral que encontramos em Pero Borges e nos senhores de engenho da colônia brasilis.

Antonio Cândido, em seu ensaio “Dialética da malandragem” chegou à conclusão de que sobreviveria entre nós uma certa “dialética da ordem e da desordem”, onde tudo viraria, ao mesmo tempo, lícito e ilícito. Nessa estrutura complexa, a intimidade se transmutaria em moeda corrente, levando a uma “vasta acomodação geral”, dissolvendo os extremos e solapando o significado da lei e da ordem.

E assim pensa a falsa elite tapense achando lícito e dentro da ordem acessar um recurso que é para os mais necessitados porque eles, em suas subjetividades acreditam que são os tais “cidadãos de bem” da nova república bolsonarista.

Eles assim como seu Mito acreditam viver em uma sociedade dual, onde conviveriam duas formas paralelas de conceber e agir no mundo. Um mundo de “indivíduos”, sujeitos à lei ( os cidadãos comuns), e outro de “pessoas”, para as quais os códigos seriam formulações distantes e até irrelevantes( os cidadãos de bem).

Este é o penamento que moveu os representantes desta falsa elite tapense ao fraudar o Auxílio Emergencial. E ainda achar que estão certos.

O problema nem é a hipocrisia em si, e sim a falta de afeto. Isso, sim, é lamentável.

Finalizo reafirmando que é legítimo e importante que a sociedade queira combater a corrupção no mundo político. Mas é triste quando recebemos notícias de cidadãos que exigem atitudes honestas de seus representantes, e ao mesmo tempo são capazes, por exemplo, de receber o auxílio emergencial indevidamente. Se esquecem que esses valores poderiam estar ajudando quem de fato necessita e que esse desvio é um ato de corrupção.

Essa atitude cruel deve ser veemente combatida e punida com rigor pois além de desumano, tal procedimento é fraudulento, e pode ser considerado crime de falsidade ideológica, com pena de um a cinco anos de prisão.

Como afirmou o escritor e  antropólogo italiano, Paolo Mantegazza “ se uma leve camada de hipocrisia não cobrisse o apodrecido tronco da nossa moderna civilização, que horrendo espetáculo não se depararia à nossa vista!”.

Imagens ilustrativas

* João Amaral é jornalista e editor do Portal A Notícia – MTB 010369/RS DRT 0019215/RS

Campartilhe.

Sobre o Autor

Deixe Um Comentário


Banner publicidade 728 x 90 RODAPÉ
AGORA É HORA DE SER VOCE?