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Por Tau Golin

A verdade, muitas vezes, aparece com o rigor de uma guilhotina justiceira.  

É como se a lâmina, descendo célere para o pescoço do “condenado”, fizesse uma pirueta no ar, mudasse de rumo, e decepasse a cabeça do carrasco. E com ela tudo que a cena representasse. 

Espanto geral da assistência celerada, freneticamente acostumada ao show de vulgarização dos condenados, parte fundamental da demonstração do poder e seus rituais integrantes de calendários de hegemonia. 

Esse parece ter sido o impacto provocado pelo recém eleito vereador Matheus Gomes (PSOL), na cerimônia de posse da nova legislatura na Câmara de Vereadores de Porto Alegre. E o que fez o jovem parlamente, que é historiador e honra a sua condição de negro? Deu piruetas no ar como guilhotinas justiceiras? Fez mais: permaneceu sentado durante a execução do hino do Rio Grande do Sul, recusando-se a cantar as suas estrofes de bravatas e ofensas aos negros. Um silêncio que transformou em presença contundente a história dos escravizados, seus descendentes e demais segmentos negros. Um silêncio de dignidade civilizatória!  

Na perspectiva dos autores farroupilhas do hino, lá no distante século XIX, existem dois paradigmas. Um, o fato de que os farroupilhas eram escravistas, senhores de escravos, antes, durante e depois da guerra civil. Como algozes, para eles, ser escravo implicava numa condição social que abominavam “somente para eles”, que eram justamente os gestores da sociedade escravista. O temor à escravidão era tão-somente um aforismo político que retiravam da classe que sujeitavam, exploravam e espoliavam até a exaustão da morte. Portanto, no mundo real em que surgiu o hino, mais que um conceito era um fato terrível, estava mergulhado na concretude histórica. A condição de ser escravo era um modelo visualizado, sentido, uma cotidianidade execrável.  

O segundo paradigma é que os farroupilhas tomavam alguns referenciais liberais da Revolução Francesa – e mesmo da independência norte-americana – como bandeira política exclusivamente na sua perspectiva de classe e de sociedade, no embate entre segmentos de senhores da província contra o gabinete central do Império. É fato histórico também que um movimento abrangente como uma guerra civil mobiliza segmentos e indivíduos que estão vinculados somente a aspectos pontuais, como se usassem a enxurrada para navegar seus flutuantes, mas que não teriam lugar na enseada real do poder.  

O hino, que praticamente não foi executado nos dez anos de guerra civil, teve várias versões, que representavam as discordâncias das três principais facções farroupilhas, com depurações, acréscimos e mesmo como exercícios literários posteriores ao decênio beligerante etc. A letra também possui passagens universalistas centradas no dilema da dominação que lhe dá certo uso geral contra a opressão. Nesse caso, sempre é fundamental observar quem está entoando o hino.  

Passadas as décadas, o hino saiu da história para ser reproduzido na esfera da “versão da história”, fenômeno que ocorreu quando foi adotado como cantilena maior do Rio Grande do Sul no início da ditadura militar (1964-1985), em que o tradicionalismo foi potencializado como expressão do regime de exceção, convertendo-se em regionalismo de sua cultura oficial, quando a pilcha gaúcha se transformou no visual civil da farda; multiplicaram-se os galpões crioulos nos quartéis, nos órgãos públicos, nas entidades de lazer das polícias etc etc. Nessa marcha de povo-rebanho, o segmento do tradicionalismo brigadiano tem certa hegemonia. Não foi um fato extemporâneo que o primeiro berro contra o silêncio consciente do vereador negro ouviu-se da boca de patroa da brigadiana vereadora Comandante Nádia (DEM), durante a própria sessão de posse. 

Nesse processo, o hino rio-grandense, adaptado de uma das versões do século XIX, foi aquele “permitido”, autorizado e incentivado pela ditadura. Não era incomum o militar-policial reprimir a população, torturar nas delegacias e prisões clandestinas (de onde sumiam as pessoas), e, depois, em sua cotidianidade, trocar a farda pela pilcha e celebrar a existência em algum galpão crioulo. Em alguns ufanismos malucos o hino era encaixado na Guerra Fria, como se o temor de acabar “… por ser escravo” significava uma maldição ao domínio “do comunismo”. Aliás, manipulações similares emergiram na última campanha eleitoral, onde a fênix de um patriotismo putrefato no senso comum, permanece se alimentando nas cinzas das casernas.  

O dilema histórico é que o hino rio-grandense resultou da escolha de versos problemáticos para uma história complexa, de longa duração, que mantêm vínculos com o fazer social, político e cultural no mundo contemporâneo. O hino contém versos abomináveis para o povo (que não tinha direitos entre os farroupilhas), aos escravizados, e à memória de milhões de rio-grandenses. Basta destacar o seguinte trecho: 

“Mas não basta, pra ser livre/Ser forte, aguerrido e bravo/Povo que não tem virtude/Acaba por ser escravo”. 

Pode-se deduzir que “os escravos não tinham virtude”; e por não a ter, logo, foram “escravizados.” Justifica-se uma condição histórica perversa através da manipulação moral. Na cultura dominante do rio-grandense, como de resto do brasileiro, o conceito de escravo não conduz à categoria política, mas sim, devido às implicações sociais, culturais e históricas, à condição de ser de “cor negra”. Concreta e subjetivamente, portanto, o hino rio-grandense é racista! 

Aceitá-lo é desconsiderar toda a barbárie da história, todo o movimento repressivo montado pelo sistema escravista para cativar milhões de pessoas, do qual todos os líderes farroupilhas e demais elites do Rio Grande do Sul participaram. Hoje, são guardiões dessa memória abjeta. Façanha para servir de modelo a toda a terra. É pouco…? 

É nesse sentido histórico e de práxis política que é louvável a posição do vereador insubordinado, negando-se ao ritual de mangueira do gauchismo escravocrata. 

O importante é perceber que o hino rio-grandense possibilita esforços intelectuais e estéticos para apreender a complexidade do século XIX e da história como processo… 

Tau Golin é historiador, jornalista e professor. Entre suas principais obras estão:

  • A Ideologia do Gauchismo (Tchê!, 1983)
  • Sepé Tiaraju (Tchê!, 1985)
  • Por Baixo do Poncho: contribuição à crítica da cultura gauchesca (Tchê!, 1987, coletânea de artigos escritos para revistas e jornais)
  • A Guerra Guaranítica — Como os exércitos de Portugal e Espanha destruíram os Sete Povos dos jesuítas e índios guaranis no Rio Grande do Sul (1750-1761) (Editora da UFRGS/UPF Editora, 1998)
  • Etnocídio e Herança Indígena (UPF Editora, 1999)
  • O Povo do Pampa (Sulina/UPF Editora, 1999)
  • Identidades. Questões sobre as representações socioculturais no gauchismo (Clio, 2004)
  • A Fronteira – 1763-1778, história da brava gente e miseráveis tropas de mar e terra que conquistaram o Brasil meridional (vols. 1 e 2, L&PM, 2002; vol. 3, Méritos, 2015)
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